Validação de ERP (SAP, TOTVS, Oracle) na Indústria Farmacêutica

Por que sistemas ERP precisam de validação rigorosa na indústria farmacêutica

Sistemas ERP (Enterprise Resource Planning) como SAP, TOTVS Protheus e Oracle EBS são a espinha dorsal operacional da maioria das indústrias farmacêuticas e fabricantes de dispositivos médicos brasileiros. Eles integram processos de compras, estoque, produção, qualidade, finanças, expedição e logística em uma plataforma única. Mas o que muitas empresas ainda não internalizaram é que, em ambientes regulados pela ANVISA, esses sistemas precisam ser validados como sistemas computadorizados GxP, com todo o rigor previsto na RDC 658/2022, na IN 134/2022, no Guia 33/2020 da ANVISA e no GAMP 5.

Esse entendimento ainda é frequentemente subestimado. ERPs costumam ser tratados como sistemas “financeiros” ou “de gestão”, quando, na verdade, eles armazenam, processam e controlam dados regulatórios críticos: número de lote, lote de matéria-prima vinculado, status de liberação de produto, expiração, controle de quarentena, rastreabilidade entre lotes e ordens, registros de inventário sujeitos a auditoria. Tudo isso é dado GxP.

Este artigo apresenta uma visão consolidada de como abordar a validação de ERPs em três das plataformas mais usadas no Brasil — SAP S/4HANA e ECC, TOTVS Protheus e Oracle E-Business Suite — alinhando à regulação ANVISA, ao GAMP 5 e à integridade de dados ALCOA+.

O ERP como sistema GxP: o que diz a regulação brasileira

A RDC 658/2022 não menciona ERP nominalmente, mas seus requisitos se aplicam claramente a qualquer sistema computadorizado que afete a qualidade, segurança ou eficácia de medicamentos. A IN 134/2022 vai além e estabelece de forma explícita que sistemas computadorizados utilizados em atividades reguladas precisam ser validados ao longo de todo o ciclo de vida.

O Guia 33/2020 da ANVISA, na sua orientação prática, enumera entre exemplos de sistemas GxP: ERP, MES, LIMS, WMS, EDMS, SCADA e sistemas customizados que controlam variáveis críticas. Na classificação GAMP 5, ERPs comerciais são tipicamente Categoria 4 — Software Configurável, com módulos customizados (Z-tables no SAP, customizações em ADVPL no Protheus, customizações em PL/SQL no Oracle) sendo classificados como Categoria 5 — Aplicações Customizadas, exigindo mais rigor.

Em inspeções recentes, vemos a ANVISA pedindo evidências formais de validação de funcionalidades específicas do ERP que impactam a fabricação: gestão de mestre de materiais (master data), controle de lotes (batch management), workflows de liberação de qualidade, integração com sistemas de produção e relatórios regulatórios.

Por que validar um ERP é diferente de validar um sistema dedicado

ERPs apresentam desafios específicos que tornam sua validação distinta dos sistemas dedicados como LIMS ou MES:

  • Escopo amplo: ERPs cobrem dezenas ou centenas de processos, mas nem todos são GxP. É essencial definir, via análise de risco, o escopo GxP e concentrar o esforço de validação ali.
  • Customizações pesadas: praticamente todo ERP em produção tem customizações. Cada customização é potencialmente Categoria 5 e demanda controle de código-fonte, gestão de mudanças formal e testes específicos.
  • Integrações múltiplas: ERPs raramente operam isolados. Integrações com MES, WMS, LIMS, e-mail, sistemas fiscais, sistemas de qualidade externos. Cada integração é um ponto de risco para integridade de dados.
  • Ciclo de vida longo: ERPs ficam em produção 10, 15, 20 anos. A gestão do estado validado ao longo do tempo (patches, upgrades, novas versões) é tão importante quanto a validação inicial.
  • Múltiplos usuários e perfis: centenas ou milhares de usuários, com matrizes complexas de perfis e segregação de funções (SoD), cuja configuração afeta integridade de dados.

SAP S/4HANA e SAP ECC: validação na prática

SAP é a plataforma ERP mais usada em grandes indústrias farmacêuticas globais e brasileiras. A validação de SAP em ambiente GxP envolve:

Definição de escopo GxP

Os módulos tipicamente GxP no SAP incluem: MM (Materials Management — controle de lotes, master data de materiais), PP (Production Planning — ordens de produção, BoM), QM (Quality Management — planos de inspeção, decisões de uso, certificados), WM/EWM (Warehouse Management — controle de localização e quarentena) e BD/MII em alguns casos. Já FI, CO e HR raramente são GxP, embora possam ter funcionalidades específicas que tocam dados regulatórios.

Customizações Z

Qualquer programa ABAP customizado (Z-program, Z-table, Z-function) precisa ser tratado como Categoria 5. Isso significa code review formal, testes unitários documentados, gestão de transporte rigorosa entre ambientes (DEV, QAS, PRD) e versionamento controlado.

Gestão de autorizações (SoD)

A matriz de perfis SAP deve garantir segregação adequada de funções: quem cadastra material não pode liberar lote, quem cria ordem de produção não pode confirmar produção, e assim por diante. Em inspeções, a verificação dessa matriz é frequente.

Audit Trail e Change Logs

O SAP oferece change logs nativos para dados mestres críticos (tabelas marcadas com “change log on”). Ativar e revisar periodicamente esses logs é essencial. Para dados transacionais, o histórico de modificações via tabelas CDHDR/CDPOS é a referência.

TOTVS Protheus: validação adaptada à realidade brasileira

O Protheus é o ERP mais utilizado em indústrias farmacêuticas de médio porte no Brasil, especialmente pelo forte fit com a legislação fiscal brasileira. Sua validação tem peculiaridades:

Linguagem ADVPL e customizações

Praticamente todo Protheus em produção tem customizações em ADVPL, que precisam ser tratadas como Categoria 5. O ambiente do RPO (Repository) e a gestão de versões dos fontes precisam estar formalizados, com controle de transferência entre ambientes (homologação e produção).

Módulos GxP típicos

SIGAEST (Estoque), SIGAPCP (Planejamento e Controle da Produção), SIGAQAD (Qualidade), SIGAAFI/SIGAQIE (módulos da Qualidade Farma), SIGAFAT (Faturamento) e os módulos específicos farmacêuticos da TOTVS, quando contratados. Empresas que usam o módulo Saúde da TOTVS precisam validar especificamente as funcionalidades de rastreabilidade SNGPC.

Integrações com Boletim de Controle

No Brasil, a integração com SNGPC, Sistema de Controle de Medicamentos, BPF e outros sistemas regulatórios da ANVISA é um ponto crítico. Cada integração precisa ser validada, com testes de cenários positivos e negativos, validação de mapeamento de campos e gestão de exceções.

Oracle E-Business Suite e Oracle Fusion Cloud

Oracle EBS continua presente em parte significativa das indústrias farmacêuticas brasileiras, embora o movimento para Oracle Fusion Cloud venha avançando. A validação de Oracle em ambiente regulado segue os mesmos princípios:

Customizações em PL/SQL

Customizações em PL/SQL, formas customizadas e relatórios personalizados são todos Categoria 5. O controle de migração entre ambientes deve ser formal, com aprovação de mudanças, registro de transporte e testes de regressão.

Inventário e Quality Management

Os módulos Oracle Inventory, Quality, Process Manufacturing (OPM) e Discrete Manufacturing concentram a maior parte das funcionalidades GxP. Workflows de aprovação, controle de lotes e quarentena precisam de validação formal.

Cloud: responsabilidade compartilhada

Em Oracle Fusion Cloud, parte da responsabilidade pela infraestrutura é do provedor, mas a configuração, customização e operação seguem sendo responsabilidade do cliente. O contrato GxP/SLA com a Oracle precisa cobrir explicitamente requisitos de auditoria, retenção de dados e suporte regulatório.

Estratégia recomendada de validação de ERP

Um projeto de validação de ERP em empresa farmacêutica geralmente segue esta sequência:

  1. Mapeamento dos processos GxP: identificação de quais funcionalidades do ERP impactam qualidade, segurança ou eficácia do produto.
  2. Análise de risco (FAR): avaliação formal por funcionalidade, classificando severidade do impacto, probabilidade de falha e detectabilidade.
  3. URS estruturada por módulo: especificação de requisitos do usuário focada nas funcionalidades GxP identificadas, com critérios de aceitação claros.
  4. FS/DS da configuração: documentação de como o ERP está configurado para atender os requisitos da URS, incluindo perfis, workflows, parametrizações e customizações.
  5. Code review formal para customizações de Categoria 5, com checklist de boas práticas e segurança.
  6. IQ (Qualificação de Instalação): verificação da infraestrutura — servidores, bancos de dados, redes, ambientes — em conformidade com especificações.
  7. OQ (Qualificação Operacional): testes funcionais por módulo, cobrindo cenários positivos, negativos, limites e exceções.
  8. PQ (Qualificação de Desempenho): testes em condições reais ou próximas do real, com dados de produção (ou anonimizados) e usuários reais.
  9. Matriz de rastreabilidade: vínculo formal entre requisitos URS, riscos identificados, especificações e testes executados.
  10. Programa de manutenção do estado validado: gestão de patches, upgrades, mudanças de customização, revisões periódicas e auditorias.

Os erros mais comuns em validações de ERP

Em projetos de auditoria e remediação que conduzimos, encontramos repetidamente:

  • Falta de escopo definido: tentativa de validar “o ERP inteiro” em vez de focar no escopo GxP, gerando documentação enorme e inútil.
  • Customizações tratadas como Categoria 4: ignorar que Z-programs, ADVPLs e PL/SQLs são código customizado e exigem rigor de Categoria 5.
  • Perfis de usuário criados sem revisão: criação livre de perfis sem matriz formal, gerando excesso de permissões e quebra de segregação de funções.
  • Audit trail não configurado: mestres críticos de material, BoM e ordens de produção sem change log ativo.
  • Patches aplicados sem avaliação: empresas que aplicam Support Packages do SAP ou pacotes da TOTVS automaticamente, sem avaliação de impacto regulatório.
  • Integrações não validadas: integrações com LIMS, MES, e-mail, sistemas fiscais não cobertas pela validação, criando lacunas de integridade de dados.
  • Gestão de mudanças burocrática: fluxo de change management que existe formalmente, mas que na prática não é seguido.

O caminho ideal: validação contínua e gestão do estado validado

Validar um ERP não é projeto com data de término. É programa contínuo. As práticas que diferenciam empresas maduras incluem:

  • Validation Master Plan específico para o ERP, separado do VMP corporativo, com cronograma de revisão a cada 12-24 meses.
  • Gestão de mudanças integrada: toda mudança técnica no ERP — patch, customização, novo perfil, mudança de configuração — passa por avaliação formal de impacto GxP antes de chegar a produção.
  • Revisão periódica de acessos: matriz de perfis revisada pelo menos semestralmente, com remoção formal de acessos de usuários desligados ou movimentados internamente.
  • Revisão de trilhas de auditoria: mensal para dados mestres críticos, com tratamento formal de exceções.
  • Auditoria interna anual: foco específico em sistema computadorizado, conduzida por equipe independente da que opera o ERP no dia a dia.
  • Documentação viva: URS, FAR e matriz de rastreabilidade atualizadas a cada mudança significativa, não apenas no momento da validação inicial.

Conclusão

Validar SAP, TOTVS Protheus, Oracle ou qualquer outro ERP em indústria farmacêutica não é uma demanda da área de TI — é uma exigência regulatória direta da ANVISA. Empresas que tratam a validação como projeto de TI tendem a falhar; empresas que tratam como programa estratégico de Qualidade e TI, com governança clara entre áreas, conseguem manter conformidade e ainda extrair benefícios reais do ERP em sua operação regulada.

A One Consultoria Regulatória apoia indústrias farmacêuticas e fabricantes de dispositivos médicos na validação de sistemas ERP alinhada à RDC 658/2022, à IN 134/2022, ao Guia 33 da ANVISA e ao GAMP 5. Se sua empresa está implantando um novo ERP, migrando para nuvem ou precisa remediar a validação atual, fale com nossa equipe para uma avaliação inicial.

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